sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Amar, verbo (in)transitivo

Confesso que amo. Mais: confesso que amo o homem que dorme ao meu lado todas as noites e que apresento como marido. Em tempos de descrença, amar é tão fora de moda…
Minha geração não acredita em nada: Deus, religião, perspectiva política, utopias, amor… tudo isso parece uma tolice sem tamanho.
As utopias eu nunca deixei, apesar de muitas vezes doer lutar por um mundo melhor – e acreditar que ele seja possível – em meio a tanto cinismo. Isso pra mim significa amar a humanidade. Essa experiência diz respeito a um amar, verbo intransitivo: amar simplesmente, independente do objeto amado. Assim, ainda me indigno com coisas há muito banalizadas… graças a Deus.
É, acho que apesar de negar ou “duvidar” que eu acredite, ainda acredito em Deus ou em um mistério da existência, a dimensão sagrada do que é inexplicável dentro de uma racionalidade lógica. Para uma pessoa auto-controladora como eu, explicar e racionalizar são palavras de ordem. Perceber que estava inegavelmente apaixonada de forma perturbadora, à la Florbela Espanca em “Fanatismo”, foi assim como viver minha própria experiência mística: há algo de sagrado, de inexplicável, de arrebatador nesse mundo… e eu tenho pouquíssimo controle sobre isso. Amar é um tremendo exercício de fé no outro, de que você está se entregando e confia nas intenções da pessoa amada de cuidar do seu coração tanto quanto você quer cuidar do dela. Essa experiência de amar pra mim se dá como verbo transitivo: há um ano, amo um homem cuja alma me parece imensa.
Porém, como parte de uma geração que acredita pouco, nem sempre dá pra falar de amar sem se sentir outsider e perceber a descrença alheia. Eu também já fui assim, então entendo. Amar, ao contrário do senso comum, é uma experiência socialmente solitária quando se está na geração dos quase 30 anos.

Fagner e Zeca Baleiro cantando a poesia de Florbela Espanca musicada por Fagner:
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..." Quando me dizem isso toda graça de uma boca divina fala em mim, olhos postos em ti digo de rastros: podem voar mundos, morrer astros, que tu és como um Deus, princípio e fim!"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ando tão à flor da pele…

Felizmente nenhum beijo de novela me faz chorar porque não vejo novela. Mas se visse, chorava.

Não sei quanto às outras mulheres, mas sinto que minha TPM só piora com a idade. Choro, geralmente à noite. Digo coisas duras, geralmente a quem amo.

Tá, tô desempregada há uma semana, não consigo achar ar condicionado pra comprar apesar da sensação térmica de 50 graus no Rio, meu companheiro tem um problema de saúde grave… marido diz que estou sendo exigente demais comigo mesma, apesar de concordar que tenho estado arisca.

SEMPRE fui muito exigente comigo mesma. Costumo dizer que fui uma adolescente adulta: irmã mais velha; primeiro beijo, quase 15; nenhuma reprovação na escola ou faculdade; só comecei a beber aos 19... É um currículo permeado de neuroses de todos os tipos.

O processo de me tornar uma mulher adulta foi de transgressão, de me tornar uma adulta adolescente. Ainda sou pouco desvairada, mas sou definitivamente uma pessoa mais leve. Ok, os quilinhos a mais. Ok, beber, pagar mico, ficar de ressaca. Ok, não me casar de branco. Ok, ganhar menos que a maioria dos meus amigos. Ok, alguns pecadinhos.

A TPM foi meu termômetro, no entanto. Ainda sou muito dura comigo. Ainda quero ser mulher-maravilha. Viajo o mundo a trabalho (literalmente os cinco continentes no último ano e meio), mas considero fundamental ter mais tempo em casa, cozinhar com marido, ler a Piauí juntos. Tenho a oportunidade de defender minhas visões políticas em lugares que jamais imaginei… e quando vejo marido dormir, percebo que desisti da idéia de não ter filho. Quero ter um filho um dia com a cara dele, quero ir à Bolívia de Morales, quero aprender italiano, quero poder alugar um apartamento maior (porque num quarto e sala todo problema aumenta)…

No filme Annie Hall, o personagem de Woody Allen começa dizendo que a vida dele é como aquela velha história de que “eu não gostaria de fazer parte de nenhum clube que me aceite como membro”. Tenho me sentido assim. Essa insatisfação até que me move e pode me levar a algum lugar interessante. No momento, ela tá me enchendo o saco. Posso terminar esse post sem uma mensagem de "dias melhores virão"? Ao menos, há boa arte no mundo pra gente viver melhor os dias cinzas.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Valor de troca e valor de uso

Trabalho há 1 ano e meio em uma ONG feminista e me considero muito mal remunerada, consideração frequentemente respondida por minha chefe com um “é o valor do mercado” difícil de tolerar. Há pouco mais de um mês, descobri que uma amiga que ocupa um cargo similar em uma organização parceira ganha quatro vezes o que ganho!! Ecoou ainda mais forte as perguntas que não calam em mim: Quanto valho pro mercado? Quanto valho pra minha chefe? Quanto valho pra mim mesma?

Essa semana, minha chefe respondeu à segunda pergunta: me disse com a maior naturalidade que não me pagaria um extra previamente acordado por uma consultoria que prestei. Em retorno, resolvi (começar a) responder à última pergunta: pedi demissão no dia seguinte.

Poucas dias marcam tanto minha vida adulta como esse. A gente vai assumindo responsabilidades crescentes de forma natural, quase sem perceber. Aí de repente acontecem uns marcos representativos do todo. Ano passado, no mês em que completei 28 anos, me casei e assinei o primeiro contrato de aluguel em meu nome. Apesar de ter saído da casa dos meus pais pela primeira vez aos 19 anos, foi um momento catártico: me dei conta de vez que minha vida adulta é agora. Em sua chegada em minha vida, Saturno não poupou em símbolos.

Pedir demissão e decidir viver temporariamente de consultorias, economia e seguro-desemprego/FGTS vai de encontro à minha mania de controle. Cheguei em casa quase de ressaca, num misto de alívio e “e agora??” Não foi bem um salto no escuro: tenho contatos e propostas de consultoria. Mas, filha de funcionários públicos, fui ensinada desde pequena a ter cautela e ser pragmática. Esse tipo de ousadia parecia não combinar com meu estilo... Só que eu tenho uma teoria sobre mim que falarei em outro post: fui uma adolescente adulta, agora estou me tornando uma adulta adolescente. Ousar combina mais comigo do que nunca.

E me perguntar o meu valor faz parte de um processo de auto-descoberta necessário. Infelizmente, em uma economia capitalista, até ONG segue a lógica do mercado. Nesse mundo, a gente não vale o que sabe e pode fazer. A gente vale o que o mercado determina. Falta então saber qual a resposta do mercado à primeira pergunta. Não outorgo com isso ao mercado o poder de determinar o valor de uso da minha força de trabalho. O quanto valho está muito além do entendimento que "o mercado" pode alcançar. Mas o valor de troca do meu trabalho, determinado pelo mercado, eu resolvi pagar pra ver. Não é que não tenha medo... minha coragem que é muito maior.


sábado, 2 de janeiro de 2010

Sobre listas e necessidade de controle

Sempre adorei fazer listas: de compras, de tarefas, de filmes que quero baixar, de CDs que quero gravar, de questões a resolver antes de uma viagem grande, do que colocar na mala, de lugares a visitar...

Nada surpreendente que eu goste tanto de listas afinal sou obsessiva. As listas acalmam as neuroses. Dão uma noção de perspectiva e uma sensação de que estou no controle. Controle. Por que alguem acredita por um segundo sequer que esse controle exista?

Só que levou um tempinho pra eu me dar conta disso… quem faz listas com tanto prazer considera este um ato absolutamente normal. Eu tenho inclusive fiéis companheiros da arte de fazer lista! Eu e minha irmã costumávamos sentar pra fazer listas juntas antes de uma viagem ou projeto comum. Um dos meus melhores amigos é fanático por listas. Já fizemos inúmeras listas em guardanapos em mesa de boteco. Teve uma inclusive, em janeiro de 2009, em que debatemos “cinco coisas que meu próximo peguete tem que ter”. Dias depois, meu “próximo peguete” excedeu as qualidades exigidas em minha lista de então e veio a se tornar meu marido oito meses depois. Necessidade pouca de controle é bobagem…

Aliás, o derradeiro peguete – que recusou-se solenemente a ser só frenesi e virou marido – ao perceber as propriedades calmantes que as listas têm sobre mim, volta e meia faz alguma comigo, especialmente durante a TPM… esse homem é um sábio, acima de tudo.
O que considero mais grave é que não faço só lista de obrigação, mas de prazer também. Recentemente marido me ajudou a fazer a lista de atividades que faríamos nas férias de fim de ano. É que como decidimos ficar no Rio pra curtir nossa casinha nova, fiquei obsessiva com a idéia de que acabaríamos fazendo as mesmas coisas de sempre por não trocar de ambiente. A lista foi uma espécie de monitoramento pra que a gente não ficasse na cama o dia inteiro, deixando o verão sempre pra mais tarde…

É difícil lutar contra fazer listas, afinal elas quase sempre funcionam comigo: me acalmam e me deixam com a impressão de que tenho tudo sob controle. Tenho noção dos perigos dessa falsa impressão, vide minha assuidade na análise. Mas enquanto eu estiver substituindo ansiolíticos por listas, acho que o saldo é positivo…

O importante é não perder de vista a lição que aprendi a duras penas com as vicissitudes da vida: a sensação de controle é falsa. Citar a analista é lugar-comum, mas a mulher é boa e resolvi dar o crédito: ela me falou da dificuldade de lidar com o buraco negro da vida, o inesperado e imprevisto que sempre há. Mas isso é tema graaaaaande pra outro dia.

Por ora, sigo com minhas listinhas, afinal novo ano implica em resoluções… estudar pra entrar no doutorado, emagrecer, convidar os amigos pra jantar comidinhas gostosas feitas por moi-même, ler Lewis Carroll antes do filme do Tim Burton estrear… como toda mulher, sofro da síndrome de Mulher-Maravilha, acho que posso fazer de um tudo, mas isso também é assunto pra outro papo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Retorno de Saturno

Mafalda quer um mundo melhor e se indigna com as injustiças. Sua amiga Susanita sonha em encontrar o amor e só pensa em se casar e ser mãe. Durante séculos, as mulheres não puderam ser Mafaldas e eram obrigadas a ser Susanitas. As que se rebelavam eram no mínimo taxadas de bruxas. A primeira geração de feministas quis ser só Mafalda e rejeitou as Susanitas. Mas toda mulher é meio Mafalda, meio Susanita. O grande drama da nossa geração é superar a falsa dicotomia... e essa é a busca da minha vida. Com 28 anos, começo a desconfiar que Saturno não retorna silenciosamente. Faz estrondo. Descobri que a vida é aqui e agora: o que eu queria ser quando crescer já deveria estar sendo… Há, todavia, boas notícias: a realidade pode ser mais vibrante do que sonhos tolos juvenis de príncipes encantados e mundos cor-de-rosa... Com vinho e fé na vida, abraço a contradição e celebro o amor e a utopia.