quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Recordar, repetir e elaborar*

Se tem um binômio sempre presente na minha vida é o da autonomia versus dependência. Por muito tempo, conferi basicamente só a mim mesma a primeira característica e a todos à minha volta, a segunda. Assim, irmã mais velha não se tornou só um lugar na árvore geneológica, mas um estilo de vida. Cuido de resolver e me sentir responsável pelos problemas de todos, da minha irmã, da minha mãe, das pessoas com quem me relacionei… Há ao menos dois elementos intrínsecos nesse padrão de repetição: minha arrogância em me considerar mulher-maravilha-resolve-tudo e a opressão de não poder falhar nunca, de nunca poder precisar de ajuda.

Sempre tive um pé atrás com o processo da psicanálise. Meu preconceito de leiga no assunto é de que a psicanálise é muito baseada na superdeterminação dos traumas de infância na vida adulta. E “traumas” de infância não faltaram na minha relação familiar, apesar de todos os esforços dos meus pais que reconheço hoje. Logo, para mim, era ainda mais difícil aceitar a psicanálise por aquilo que eu julgava ser: a inescapável repetição de padrões apreendidos dos traumas de infância.

Há um mês, finalmente deitei no divã da minha analista, que comecei a frequentar a dois meses e meio, fruto de um reconhecimento meu de que não consigo resolver tudo sozinha: uma doença grave acometeu uma pessoa que amo e não sabia se chorava, se rezava, apesar de duvidar da existência de Deus, se simplesmente desistia de pensar em tudo isso e vivia em negação do problema… objetivamente, não havia nada a fazer além de manter a serenidade e ter fé em algum sentido maior da vida, mesmo que nem sempre o entendamos.

Psicanálise não é sobre repetição eterna como uma pura reprodução de padrões. É sobre o entendimento da frequente retomada de padrões, mas SEMPRE abrindo espaço pro advento do “impossível”. Milagre, mistério, mágica… esse espaço inexplicável pela razão desfaz o argumento da superdeterminação. Há tendências baseadas em experiências do passado, mas nada está determinado. O que está por vir não está escrito em pedra em lugar algum, está sendo escrito, como aqui agora.

* Texto do Freud sobre a técnica da psicanálise, disponível na web em suas obras completas.


Woody Allen em entrevista a respeito. Possivelmente um dos principais artistas a utilizar a psicanálise em sua arte, presente em diversos filmes.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pecadinho

Esse carnaval tinha planejado viajar. Aí resolvi sair num bloco pré-carnaval fim de semana passado e o bichinho do carnaval me mordeu. Já era. Convenci marido, decidi ficar.
"A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia..."
Trabalhei o ano inteiro, pedi demissão há pouco mais de um mês, entrei em crise sobre minha forma de "fazer política". Politicar exige nervos de aço, mas isso é tema pra outro post.

"Essa noite não quero saber de conselho,
esquece, deixe pra lá,
me arranje um pecado quente pra me consolar,
pense bem que depois tem o ano inteiro pra gente pagar"

Pra quem foi adolescente adulta e agora é uma adulta adolescente, se aproximar dos 30 tem uma leveza inesperada. E carnaval é tempo bom de transgressão. Quero pecadinhos sem culpa. Leveza e frenesi.

Já diria Tom Zé, nessa música que resume meu espírito, na voz da poderosa Márcia Castro:

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A mulher, as viagens…

Assim como muita gente, nasci e cresci numa dessas famílias de gente que não se entende. Gente que não sabe se amar sem se machucar. Minha saída pra essa realidade não foi me tornar rebelde – embora altamente contestadora do senso comum – mas sim desenvolver desde cedo uma paixão pelo estrangeiro, terras longíquas onde outra vida parecia possível e onde eu podia encontrar meu “verdadeiro” eu.

Do desejo realizado do primeiro intercâmbio aos 19 até a situação atual de morar no Brasil mas longe de minha cidade natal, passei por diferentes países onde morei, trabalhei, estudei ou só visitei. Aprendi a falar algumas línguas ao ponto de ser confundida por local não raras vezes, conheci lugares distantes só com uma mochila nas costas, guias na mão e uma obsessão na cabeça: conhecer, conhecer, conhecer… o diferente, o novo, o lugar dos sonhos possíveis.

O que sempre evitei foi a estabilidade. Os relacionamentos começavam com um impedimento claro, um alerta ao outro: “nós não temos futuro porque eu vou me mudar em alguns meses…” Que era na verdade um alerta a mim mesma: não quero estabilidade, não quero enfrentar problemas que existem em mim, não quero lidar com questões que emergem de relacionamentos longos.

Há um ano e meio me mudei pela “última” vez e, cansada da vida errante, decidi comprar móveis. Me casei. Decidi que queria fazer minha vida aqui, finalmente. Fiz contrato de aluguel. Faço planos de permanecer. Descobri há algum tempo que os problemas da minha família de origem não melhoravam com a minha fuga. As questões não resolvidas me perseguem como sombra em qualquer continente. O desejo de permanência faz parte do entendimento de que tenho que parar de fugir fisicamente de mim mesma para finalmente buscar me encontrar. Busca que é projeto de uma vida inteira…

Drummond traduziu meu sentimento em poesia há algum tempo: