O amor com entrega é um ato revolucionário. Subversivamente, meu companheiro e eu ignoramos as visões cínicas da humanidade e mergulhamos com fé nesse ato. Com todo nosso querer e força.
Mas, agora, 4 meses depois que meu comparsa desertou, exigem de mim que repense essa entrega. Querem domesticar minha vontade em algo mais "aceitável" e "compreensível". Amei demais, exagerei na fé, dizem. Aceito que o cotidiano da luta ficou duro demais pra ele. Mas às vezes quero encontrá-lo pra exigir que não me deixe aqui sozinha defendendo o que acreditamos juntos, o que sonhamos juntos. E que por sonharmos juntos foi real. E que por defendermos juntos, éramos fortes. Agora me falam como se eu fosse quebrar. E talvez eu quebre.
Que faço eu pra sustentar essa fé mesmo no momento pós-revolucionário? Se me deixou só meu companheiro, meu comparsa, meu interlocutor preferencial, como sigo acreditando em qualquer coisa, depois de entregar os últimos anos da minha vida pro ideal que compartilhamos? E que agora só segue existindo em mim?
É verdade que minha insistência em apegar-me a este sonho dá vazão a um saudosismo doloroso e me dificulta seguir em frente. Não quero me tornar velha alma entristecida pelo sonho perdido. Há de existir outros motivos pra sorrir e querer. Mas a alternativa a isso é manchar minha memória, reduzindo o sonho passado? Como seguir tendo fé no que tive e ainda assim querer o novo?