terça-feira, 26 de julho de 2011

O fim das grandes narrativas?

Todo casal tem sua história, de como se conheceram, como se apaixonaram, como decidiram ficar juntos. E quando há sintonia, essa grande narrativa é tão compartilhada que duas pessoas se sentem parte de uma mesma história, em alguns momentos confundindo-se. Antes dos 30, tive o privilégio de viver uma história que muitos passarão uma vida inteira sem sequer tangenciar.

Uma história de amor deixa de ser bonita se seu fim é feio? Quero pensar que não, porque senão meu presente reescreveria meus últimos anos de forma tão profunda que não sei como encarar um futuro com essa bagagem. Sim, quase-30 e o meu grande amor frustrado, sofrimento sem palavras, buraco negro. Nisso meu companheiro tinha razão: é impossível fazer 30 sem amargura. Saturno se aproxima ainda mais, causando abalos sísmicos desestruturantes. Qual o meu lugar nesse mundo? Nômade que tinha fincado raízes, poderei permanecer sem fugir das dores?

Uma das coisas mais tristes do fim de uma história é que dois passam a ser dois de novo e esse rearranjo "matemático" causa estragos metafísicos e filosóficos, narrativas se multiplicam, culpados e culpas emergem, dores parecem não ter mais fim... e nessa torrente, que falta faz o acolhimento da grande narrativa da crença no amor e na possibilidade de vencer a confusão de quereres e histórias de vida. A grande narrativa pode ter sido substituída por versões da história, mas algumas versões se aproximam mais do real do que outras (sim, pois existe o real, outra lição aprendida com ele!) e o que me sustenta é a fé de que passada a tempestade, para além do que mareja os olhos e alma, reencontrarei a verdade e me reconciliarei com eu-aos 27, jovem mulher, amando loucamente e acreditando na eternidade.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dividir o teto

Essa coisa de dividir o mesmo teto
É um delicado ato
Às vezes dá vontade de fugir pro mato
Sufocamos entre tanto concreto

Mesmo mantendo o coração aberto
Num dado momento insólito
Pode-se ficar farto
De ver o outro tão de perto

Se então perco o tato
E digo o que penso de forma torta
Talvez receba de volta um pito
Talvez sem perceber, feche uma porta

É vão buscar sentimento exato
Num poço de dor infinito
Talvez me encontre de assalto
Torpe, tola, tonta
Buscando acordos tácitos
Onde nada foi dito