terça-feira, 13 de setembro de 2011

A existência além de mim

É incrível como você continua existindo além de na minha memória e na minha alma, mas também nos outros. Desde a sua partida, ao mesmo tempo que perdi sua companhia insubstituível, ganhei outras tão lindas que têm me ajudado a ter fé na vida. Ontem foi o aniversário de 98 anos da vovó Iracy. Sentimos sua falta. Mas estar perto da sua família me faz sentir mais perto de você. Herdei de você uma família no Rio tão acolhedora... quantas vezes quis te dizer nesses últimos dias do consolo que a amizade da sua mãe tem sido pra mim. Ou d@s amig@s que conheci através de você e que se aproximaram ainda mais. Das palavras de carinho e dos abraços que recebi nessas últimas semanas. Queria te falar disso. Que você tem me dado presentes mesmo depois de partir.
Hoje acordei às 7 da manhã com uma ligação que me lembrou aquelas que você recebia nas madrugadas do verão de 2009 do Vinícius e que nos faziam rir de cumplicidade. Era o Vinícius voltando do curso em Amsterdam que você tanto quis que ele fosse... ele foi mediador de trazer um presente seu pra mim. Sua cópia da "A Teoria da Revolução no Jovem Marx", ainda com suas anotações nas páginas. E com uma dedicatória do Lowy de próprio punho que ele conseguiu em Paris. Lembro quando lemos esse livro juntos naquela semana do inverno de 2009 sob as cobertas em Boa Esperança. Mas Vinícius me disse que você sempre insistiu com ele que me entregasse o seu exemplar que estava emprestado pra ele com as suas anotações de quando ainda enxergava. Fiquei pensando como é poético que poderei reler esse livro com você - acompanhando suas anotações de jovem marxista apaixonado - mais uma vez e quando eu quiser por toda a minha vida. Minha gratidão por você estar aqui de tantas formas diversas e pelo presente desta manhã. Sorri com lágrimas lavando a alma, com alegria genuína pela beleza da vida.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre a transitoriedade

Difícil mesmo é ter prazer no presente. Uma lua cheia linda que antes me encheria de fé na vida é como o planeta Melancolia prestes a colidir com a Terra. Fico me perguntando de que adianta querer o que pode acabar. Sofro por antecipação do luto de tudo que é belo e pode vir a ser belo, em conseqüência do luto de fato.
A perda é a dor mais bárbara que já senti. Agora como nunca entendo meu companheiro e suas perdas. Se já me doía o coração ao vê-lo chorar por não poder me ver, agora me dói tanto tudo que ele poderia ter sido e a falta imensa do que ele já foi.
No dia seguinte à sua partida, acordei com uma pergunta: "se ele existe em algum lugar, voltará a enxergar?" Ai, como sorriria ao saber que ele existe enquanto consciência individual, pensante, em contínua expansão e que não sente dores físicas e que pode ver. Como o amor generoso que cultivamos, seguiria sorrindo, cúmplice da alegria dele em encontrar a cura que tanto buscou em vida e que nos levou até a Índia para uma convivência inesquecível. Como admirei a luta que ele travou aquelas semanas. E antes. E depois. Que homem imenso.
Com sua ausência e a incerteza da sua continuada existência, busco em vão apreender o sentido das coisas. Poderei eu voltar a sorrir e a querer a vida genuinamente, mesmo sabendo da certeza da perda? Mesmo sem ter certeza do reencontro?
Quero querer. Mas ainda desconheço o caminho e me acompanha o medo. Até quando? Se tudo é transitório, o será também a dor da alma? O que parece agora tristeza profunda irremediavelmente instalada talvez possa um dia se tornar saudade singela e vontade de viver. Sigo lutando por sentidos redescobertos.


quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Escolhi viver, ainda que todavia tropece muito...

Parece que assim como as lágrimas lavam a alma da tristeza que transborda, os fios de cabelo branco aparecem sorrateiramente como marcas visíveis das dores, para não as esquecermos nunca. Quando um mês depois de casarmos meu companheiro teve uma piora de diagnóstico, ganhei incontáveis fios de cabelos brancos em alguns meses. Agora, após sua partida, me imagino envelhecendo cinco anos em um... Não os pinto, pois não nego o peso das dores que os trouxeram. Ao contrário, quero me olhar no espelho e, mesmo vendo as marcas explícitas das fraturas expostas da alma, saber que de algum lugar desconhecido brotou a força que me mantém de pé.

Ainda me arrasto e sigo lavando a alma com lágrimas, mas um dia dançarei com paixão pela vida e lavarei a alma com menos freqüência, porque não estou me furtando agora da enxurrada que leva, junto com as lágrimas que correm, os destroços de todos os caminhos do meu coração devassado. Que venham os cabelos brancos das dores vividas com entrega, assim como foi a entrega ao amor que as trouxeram!

Escolho viver.