quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Brilho eterno?

No rol das frustrações dos quase-30, sem dúvida a "vida sentimental" figura luminosa no imaginário de mulheres (e homens) recebendo a visita de Saturno. Da frustração de não ter ninguém em vista e se sentir só, às frustrações de um relacionamento a dois, passando pela dor de já ter passado por um casamento frustrado... frustrações abundam quando se QUER amar. Durante muito tempo, acreditei que "bem melhor seria poder viver em paz, sem ter que sofrer, sem ter que chorar, sem ter que querer, sem ter que se dar". Até me apaixonar e resolver viver esse sentimento tão inebriante, que colore tudo mais de novos e inesperados sentidos.
Viver a dois exige acordos que se fazem na mesma língua, há de se entender o que se expressa, comunicação de vontades, chateações, limites. O problema é que às vezes nos sentimos como "Baudolino", falando várias línguas ao mesmo tempo e não sendo compreendidos em nenhuma delas. Diálogos se tornam constantes DRs, o ronco que a princípio era bonitinho não te deixa dormir, expectativas a respeito do comportamento do outro oprimem o cotidiano natural... em alguns momentos, você se sente mais compreendido por desconhecidos do que pelo interlocutor prioritário, com quem tanta intimidade foi construída.
Às vezes a fronteira que protege a intimidade de um casal e o que é só dos dois se torna fina e frágil membrana e até sufoca, te faz sentir saudade de si mesmo, torna escuro o ambiente em que conseguimos "ver" o outro.
Não tem idade pra viver isso, amor ou frustração. Mas, sim, aos quase-30 nossas expectativas de realizar algo nesse espaço parecem intensificadas com lente de aumento. E nós parecemos tão incapazes de fugir e também de enfrentar tão grande tarefa.

Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" fala tão lindamente da vontade de estar junto, da dificuldade de sustentar a convivência, da insistência em tentar apesar de tudo, mesmo quando se tenta esquecer:

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mundo grande transpõe conjunção astral

O que meu ascendente em Aquário faz por meu sol em Escorpião é me dar uma aparência de superfície fria e tranqüila encobrindo uma alma de profundos redemoinhos e mar quente e revolto.
Desconheço outra pessoa que cruzou o espaço entre duas temperaturas tão diversas em tão curto espaço de tempo como marido na noite em que nos conhecemos. Com habilidade rompeu fronteiras bem construídas e cultivadas e causou fascínio em uma alma solitária e de discurso cínico. Acolhimento inesperado e desejo intenso fez de um desconhecido o interlocutor prioritário e o corpo imprescindível. Absolutamente.
Tenho me perguntado porque apesar de uma conjunção astrológica tão favorável ao mistério, tenho tido tanto prazer em me despir publicamente. O amor e análise começaram a abrir fendas em minhas fronteiras antes bem guardadas. E algumas dores começaram a mostrar suas feias faces.
Tal como Drummond, preciso de todos para suportá-las.

"Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos."

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Tempo II: Mas eu sou tão moça pra tanta tristeza...

Na "fuga" dos fantasmas do passado que me batem à porta nos quase-30, dei de cara com alguns que me deixaram numa tristeza profunda. Encontrei pessoas que convivia há mais de 10 anos atrás. Me senti, como na canção de Violeta Parra, que tinha voltado aos 17 depois de viver um século. Tão distante daquelas pessoas e daquele modo de vida. Tão enojada com os comentários reacionários que um deles insistia em fazer.
Foram 3 horas de tortura que só muita cerveja me fez tolerar anestesiada. E pior: me levaram a reencontrar o fantasma da ruptura que fiz em minha vida. Ao chegar em casa, redescubro que "solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes", me agarro ao corpo do meu companheiro buscando desesperadamente refugio dos fantasmas. Ele busca me acolher me mostrando que ao invés de culpa, deveria ter orgulho de ter ido contra-corrente e rompido com o que era esperado de mim.
Talvez o que mais tenha doído foi me perceber mais do que nunca como outsider em um mundo que tem aquilo como regra e o que eu acredito como filosofia de vida como absolutamente marginal. Apesar de ter rompido tão cedo com aquilo, por muito tempo ainda busquei tolamente conviver com aqueles fantasmas por obrigação social, alguma compaixão à alienação de suas pseudo-felicidades, como se pudesse resgatá-los. E como doía sentir que não há nada a fazer agora, talvez essa insistência demasiado ingênua só machucou ainda mais minha crença no ser humano. Talvez seja o momento de deixar de reconhecer esses fantasmas como meus, virar as costas e numa ruptura freudiana "matá-los" e numa ruptura estrutural reconhecer que estamos de lados opostos na trincheira mesmo. Passar de frustração e raiva a propósito pode fazer sentido.
No caminho de vencer os fantasmas do passado, às vezes a reconciliação com eu-aos-17 pode se dar pelo reconhecimento de que o espaço dessa batalha não é mais exclusivamente psíquico-pessoal, mas ideológico.

Em momentos intermináveis de tristeza pelo reconhecimento dessa ruptura e tentativa de reescrever minha memória sem odiá-la ou me afundar na frustração, busquei numa música que tanto fez parte da minha história, um pouco de significado.
Como no poema "Canteiros" de Cecília Meireles musicado por Fagner:
Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

E dessa por livre associação, cheguei à belíssima canção de Violeta Parra "Volver a los 17", que tem assustadoramente e libertadoramente a ver com este momento:
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como decifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Para deleite:


terça-feira, 30 de novembro de 2010

La columna rota

Uma semana depois da fatídica previsão de uma astróloga de que tinha que ter cuidado com meu "eixo de sustentação corporal", quase como uma profecia auto-realizante fico com um torcicolo absurdo.
Um ortopedista incompetente (aparente pleonasmo...) me recomenda o uso de um colar ortopédico, "inclusive ao dormir".
Depois de passear por aí me sentindo mais próxima do que nunca da Frida Kahlo, cheia de dores e meio patética, ouço de uma amiga com quem fui almoçar no domingo que torcicolos severos "são aparentemente um mal de mulheres nos quase-30".
Ah, Saturno, Saturno, soturno, me persegues até na anatomia? Já não bastam os prenúncios de rugas, o medo da flacidez afastado com o vício do pilates, os fios de cabelos brancos que me recuso a tingir?
Cheia dos conselhos e da aparente lucidez de todos os seres humanos, vou num osteopata holístico [risos em suspenso pela dor] que me diz: "2011 será um ano intenso pra você e precisamos limpar seu fígado". Fico com aquela cara interrogativa (ou seria a dor?) e ele me diz "tenho intuição". Ok, ok, aparentemente dos planetas do sistema solar a toda sorte de indivíduos, todos parecem saber algo mais sobre meu futuro que eu mesma poderia antecipar. Resolvo respirar fundo e relaxar. Ele estala minha coluna e pescoço, me enche de agulhas de acunpuntura e choques. Há de se desestruturar a anatomia pra se reconstruir então? Me pergunto... decidida a recusar conselhos que não venham da minha alma ou corpo. Os alheios só me causavam confusão mental e anatômica.
Chegando em casa, reencontro formas mais profundas de ouvir meu corpo e alma. Em todas as posições. Amém.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O TEMPO I: "Batidas na porta da frente: é o tempo...

..eu bebo um pouquinho pra ter o argumento."

Quando tinha 19 anos, escrevi uma carta pra mim mesma pra ler cinco anos depois. Claro que antes dos 24 acabei relendo. E reli muitas vezes desde então.
Na carta "relembro" a mim mesma meus sonhos de juventude pro caso de ter esquecido. Falava de tudo que ainda queria fazer, lugares a visitar, línguas que queria aprender, o que achava importante pra me realizar... dez anos depois me impressiona a lucidez de algumas coisas. E a ingenuidade de outras.
De alguma forma, havia um medo aparente de que com o passar do tempo eu endurecesse, me burocratizasse, deixasse de lado o que me dá sentido em prol de confortos banais, me tornasse talvez o protótipo de "adulta" que minha mãe desejava: social e financeiramente responsável, que tem filhos, paga impostos e trabalha 40 horas ou mais por semana. Verdade seja dita, pago meus impostos religiosamente e não devo um centavo a banco algum. Mas aos 21 anos tinha juntado uma grana trabalhando feito uma louca nos EUA e torrei tudo durante 1 ano na Europa aos 22... Até o momento, não consegui uma poupança equivalente, mas não há um sopro sequer de arrependimento nessa lembrança. Confesso que vivi, já diria Neruda.
O que aquela carta já antevia lucidamente é que o problema não está no que um dia nos orgulharemos, mas o que nos traz arrependimento, culpa, frustração... e aos quase-30 anos, todos temos os nosso fantasmas pra encarar. E às vezes são bem feios. E insistentes.
Acho que eu-aos-19 anos queria assegurar que eu-aos-24 anos, tivesse compromisso com meus sonhos de juventude, ficasse alerta pra necessidade de driblar o TEMPO e suas constantes armadilhas, como a rotina, o esquecimento, a estabilidade... como extremista que sou quando abraço uma filosofia de vida, dei adeus a amores como quem se desfaz de uma roupa incômoda, fiz o possível pra negar minha educação jesuíta de boa moça baiana, como uma mariposa aprendi a arte da mimetização, aprendendo e abandonando sotaques de acordo com a necessidade...
Nesse processo, passei por cima de muitos fantasmas que agora batem à porta. Aos quase-30 anos, estou aprendendo que não posso ser tudo que eu-aos-19-anos queria. Ainda bem. Em dez anos, aprendi um pouquinho mais sobre o mundo e quero algumas coisas diferentes pra mim mesma. Mas ainda tenho que fazer as pazes com eu-aos-19-anos, eu-aos-20-anos, eu-aos...
E pra isso, ando recuperando projetos há muito guardados...

Pra lidar com fantasmas, nada melhor que a arte (Resposta ao tempo):
"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"Te encontrei"

Meu Amor,

Quando andava errante que não tinha mais tempo,

Que já não tinha mais espaço para desejar a vida,

O tempo fugia de meu ser

E eu angustiado sentia que me restava só...

Eis que o mistério se apresentou:

No dia de São Sebastião do Rio de Janeiro...

Inadvertidamente quatro elementos se reuniram e davam início...

Desejo, Tempo, Espaço e Destino davam formas a uma espécie de livro de páginas infinitas.

Este livro desde então segue suas páginas, perene e cheio de torpor

E em algum sonho mesmo com a neblina sobre meus olhos...

Consegui ler seu título: A M O R

Dois autores: TEMPO E DESEJO

Celebro os vinte e nove anos de existência de minha Mulher...

Meu AMOR... escreveremos juntos o livro infinito da vida...

TE AMO


(Daniel do Vale)

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As alquimistas estão chegando...

... estão chegando as alquimistas.O primeiro livro que li em espanhol foi "Como água para chocolate" e além do prazer infinito que ouvir uma história ser contada em outra língua por primeira vez dá (experiência aperfeiçoada pelo advento García Marquez em minha vida), aquela história me tocou profundamente.No entanto, nunca como agora nos quase-30, consigo me sentir tão ligada à história de quem expressa seus sentimentos e causa sentimentos através do preparo dos alimentos.Do ponto de vista de uma feminista que estuda o trabalho das mulheres e suas implicações na opressão de gênero, o preparo dos alimentos é uma das atividades frequentemente citada na lista dos trabalhos majoritariamente exercido pelas mulheres e de forma negligenciada pela economia por acontecer fora do "mercado". Mas a vida econômica e social está muito além do que o mercado abarca. A preparação dos alimentos produz valor de uso que as famílias e comunidades usufruem e precisam. É mais uma dimensão do "cuidado", esfera da vida que é central pra nossa sobrevivência e bem-estar, e onde as mulheres são protagonistas (e talvez por isso mesmo tão depreciada, porque nenhum terreno tradicionalmente feminino pode ser valorizado sem empoderar-nos... e empoderamento das mulheres é aterrorizante pra quem oprime).Quando digo que sou feminista, muitos ficam surpresos e me perguntam o que isso significa pra mim. Como feminista luto pra que os papéis sociais que são tradicionalmente femininos, especialmente os do cuidado, alcancem o status social que lhes cabe pela centralidade que têm na nossa vida. Luto também para que as mulheres possam transitar com facilidade nos espaços e papéis tradicionalmente masculinos (como a política), porque são dimensões da vida social que cabem às mulheres tanto quanto aos homens. Luto também para que os homens desempenhem tanto quanto as mulheres as atividades tradicionalmente femininas, como as do cuidado, para que as mulheres possam de fato ter tempo para estar nos espaços masculinos sem que isso implique uma jornada múltipla de trabalho.Mas tem um aspecto dessa luta com a qual sempre tive (e acredito que a maioria das feministas também) dificuldade: valorizar os papéis tradicionalmente femininos significa valorizar quem os desempenha prioritariamente, ou seja, entender que algumas pessoas (sem distinção de gênero, ainda que geralmente são as mulheres) podem querer ser mães/pais em tempo integral, cuidar da casa, cozinhar pra família... entender que essa é uma escolha legítima e linda.Sempre tive dificuldade de entender como algumas de minhas amigas brilhantes e muito cultas decidiram não ter uma carreira e ser mãe a toda hora, antes dos 30 inclusive. Um misto de incompreensão e pena, como se elas estivessem oprimidas pelo machismo dos maridos. Admito minha prepotência, mas era difícil afastar esse sentimento.Recentemente, me encontrei envolvida profundamente no cuidado de quem amo e descobri o prazer imenso dessa experiência, apesar de é claro ser confuso. Descobri que absolutamente amo cozinhar e me sinto parte de uma comunidade restrita de pessoas que cozinham por vontade e prazer. Adoro ir dormir pensando no que tenho na geladeira e como na manhã seguinte vou me tornar alquimista no preparo de algo saboroso. Adoro ir na feira com sacola grande, escolher algo novo como couve de bruxelas e descobrir como vou cozinhar isso... na alquimia da cozinha, me sinto parte de uma sociedade secreta, dos que amam e exercem essa arte.Temperar, inovar, alimentar quem amamos, ouvir huuuuummmm... que delícia! Me sinto meio bruxinha, fazendo feitiço na minha panela, alquimista de sabores.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Eu, caçadora de mim...

Tenho mergulhado no infinito de mim mesma ainda mais intensamente, seja aumentando a freqüência na análise ou cultuando mais o tempo sozinha pensando em questões intermináveis. Dói se encarar. Dói se desnudar até para si mesma. E perceber como sou tão refém de neuroses que Freud diria que começaram na infância e eu acho impossível de obter a genealogia detalhada.

Surreal também como ao futucar os vespeiros de nossa alma, encontramos referências às coisas mais absurdas, de mitos gregos de castidade a rituais de bruxaria...

De alguma forma me parece que na minha vida, a experiência de ser mulher encanta e perturba. Da admiração profunda pela força feminina, ao desconforto com o desejo tão fácil que provocamos com um decote mais revelador. Ser mulher é fragilidade e fortaleza e por isso tão contraditório e belo. Eu me abismo, me arrebato e me arrisco nessa aventura, apesar das dores e da vontade de me esconder numa conchinha que às vezes me toma com força...

Ao menos, reconheço a força das mulheres que me antecederam e abriram caminhos que hoje trilho com mais facilidade e trilho outros que outras irão trilhar com mais facilidade, num círculo mágico infinito de subversão, rebeldia, grito de liberdade, loucura e - diriam alguns - bruxaria...

sábado, 31 de julho de 2010

a solidão infinita das multidões

Estou órfã, sem papel de escrita. Meu moleskine cheio até a última página e não tenho um novo à espera há um par de meses. Os momentos de solidão, cada vez mais caros num apartamento tão pequeno e compartilhado, não cabem em meu silêncio. Minha saída, me desnudar publicamente, talvez um arroubo tolo, mas agora absolutamente necessário.

Preciso me encontrar mais frequentemente, a sós. Sinto falta de me conhecer mais depois que me vi através dos olhos de tantos. Agora necessito absolutamente estar só comigo. Nem sempre a meditação, o silêncio, a análise, a contemplação ou o cigarro roubado bastam...

Projeto sete desejos, na fumaça do cigarro...

Quanto de nós podemos doar aos outros sem que deixemos de ser nós mesmos? Amar é se dar, se envolver, ao ponto de se confundir, às vezes não conseguir distinguir onde se começa um e termina o outro...
Não sou adepta da filosofia-mundo liberal da afirmação do indivíduo e suas vontades desconectadas de tudo e de todos. A interdependência é real e palpável. E se alguns esquecem disso no dia-a-dia, sempre vem uma tristeza que implora por acolhimento, uma doença que precisa de cuidado, uma dúvida que pede bate-papo... pra nos lembrar que precisamos dos outros, SEMPRE! Então, sem ilusões de que a autonomia total é possível, também há de se reconhecer o silêncio de si mesmo, um espaço que ninguém além de nós tangencia e que é tão imcompreensível até pra nós mesmos...
Na prática do amor à humanidade e do amar verbo transitivo (amar a alguém em especial) tão frequentemente nego ou ignoro o silêncio de mim mesma. Mas continua ali e às vezes emerge, sufocado de passar tanto tempo enterrado e explodindo de angustia...
Cotidianamente recalcamos desejos em nome do compromisso aos outros, às nossas verdades, à coerência com a nossa filosofia de vida, ou a tudo isso. Do chocolate a mais, ao cigarro proibido e da trepada que vai nos atrasar pro almoço de família... quando é que os recalques deixam de ser compromisso recompensador e passam a ser auto-abnegação compulsiva, do tipo que nos leva fatalmente a cobrar a conta daqueles em nome de quem supostamente freiamos tais impulsos? Se em algum lugar este limite está claramente demarcado, alguém hasteie uma bandeira no ponto porque eu creio que me confundi. A resposta do bom samaritano ou do iogue é que há de se ter equilíbrio e etc e tal. Mas se equilíbrio fosse o conceito tão auto-explicativo, não estávamos sempre nos descabelando com os excessos de se gastar, de se dar, de se reservar, de não arriscar...

domingo, 30 de maio de 2010

Mulher é bicho esquisito...

...todo mês sangra.
À medida que me aproximo dos 30, tenho notado mais as especificidades da TPM. Não sei se porque me conheço mais e percebo melhor o que me acontece há uns 16 anos todos os meses. Ou se a coisa vem piorando com a idade. Dividir o teto com alguém que tem que aturar as agruras disso também me fez mais consciente das minhas chatices.Fato é que me convenço que se tivesse anotado cuidadosamente, conseguiria escrever minha biografia baseada no meu ciclo menstrual. As principais brigas com minha mãe e irmã na adolescência, as crises de namoros, os ganhos de peso, a vontade de largar tudo e pegar a estrada, os momentos altamente sexuais e os assexuados e até, pasmem(!), o comportamento intestinal parece ter a ver com a danada.Essa coisa de reeducação alimentar e atividades físicas também ajudam. Eu, sempre tão preocupada em cuidar do intelecto e do espírito... observar as mudanças do meu corpo também têm me ajudado a me entender mais. Se tem uma coisa que o feminismo trouxe de ruim pras mulheres "descoladas" é a quase-negação das especificidades da matéria e constrangimentos de ordem natural. O corpo existe enquanto entidade, embora o que façamos com ele seja tão intrinsecamente simbólico.Aí, aos quase-30, tenho me preocupado não somente com o etéreo, mas também mais recentemente com o corpóreo. Há uma geração atrás, uma mulher da minha idade já provavelmente seria mãe. Negação do corpo-enquanto-entidade é piada quando se está com um ser na barriga ou o alimentando no próprio peito. Sempre acho essa coisa da mulher e sua cria muito louca e intensa. E nós, mulheres "descoladas", quase que nos descolamos da própria experiência humana, tentando domar os ciclos da natureza, escolher o momento apropriado (?) pra ter filhos, achar que qualquer dia do mês o humor tem o sabor de nossa vontade...Não faço um manifesto em defesa da sobredeterminação da matéria sobre a vontade. Mas a favor da humildade de reconhecer que não somos mulher-maravilha. E mais: reconhecer o próprio mistério inominável de existir. Tô engatinhando nesse caminho de humildade. Mas a vida tá me sacudindo pra que eu não esqueça meus limites, ao contrário dessa aventura pós-moderna do tudo-é-possível. Reconheço as implicações negativas do feminismo, mas desserviço mesmo fez Xuxa e sua "Lua de Cristal" pras quase ou recém-balzaquianas da nossa geração, frustradas de culpa por não conseguir ser tudo que quer.


PS: Aceitar que há limites não implica em ser conformista. Exercito minha utopia, loucura e fé no amor sempre! Afinal, "Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer... meu coração vagabundo, quer guardar o mundo em mim."

Pra encerrar, duas sábias mulheres que inspiram...


quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dilema do Prisioneiro ou Amor Livre?

Todo relacionamento tem pactos. Nos comprometemos a não revelar a ninguém as loucuras mais íntimas do outro, a guardar os segredos confessados, a não julgar ou ridicularizar as obsessões tolas, a não deixar outro alguém ter íntimo acesso a nosso corpo... Possessividade? Talvez. Afinal, já diria Raulzito: "se eu te amo e tu me amas, um amor a dois profana o amor de todos os mortais..." Sintomático que todos esses pactos envolvem o medo do acesso de terceiros aos segredos que, vividos somente a dois, dão uma sensação de pertencimento sem paralelos.
Nessa onda de ser cabeça aberta, fui testando os meus limites. E relacionamento aberto é uma daquelas fronteiras que não me dá curiosidade ou vontade de ultrapassar. Acho até interessante que pra algumas pessoas funcione tão bem (e elas tendem a afirmar que isso aumenta a intimidade). Pode ser caretice, mas a cumplicidade proveniente da exclusividade acordada me é muito cara e inegociável. Mas o que reverte o senso-comum aqui é que se trata de um pacto que inclui terceiros, mas que, como todo pacto, envolve acordos sobre limites. Me parece que o casal em questão tenta assegurar que esse "exercício de liberdade física" não implique na perda da cumplicidade da qual só os dois são partidários. A exclusividade física deixa de existir, mas o elo emocional exclusivo se mantém presente. Ou até que se quebre, o que pode acontecer com ou sem relacionamento aberto.Acho que aqui reside o problema. Os pactos de relacionamento são delicados porque envolvem a necessidade de confiança no compromisso do outro, seja qual seja o formato. O preconceito com o formato relacionamento aberto vem da idéia de que esse compromisso é mais frouxo. No entanto, a propagada fidelidade física é tão constantemente quebrada por casais diversos...No dilema do prisioneiro da teoria dos jogos é descrita a situação hipotética de que dois cúmplices de um crime são presos em celas separadas, sem a possibilidade de comunicação. Ambos recebem o benefício da "delação premiada": entregue seu comparsa e reduza sua pena. No entanto, há o entendimento de que se ambos delatam o outro, a pena será grande para ambos. Se um delata e o outro não, o que delatou se safa e o outro tem a pior pena possível. E se ambos negam a participação de ambos, ambos têm a menor pena. Quantos deixariam de delatar sob o risco de que o outro lhe entregue e assim receba pena máxima? É um equilíbrio delicado que exige muita confiança.A entrega sincera ao amor implica em um nível de confiança no outro que é rara nos dias de hoje. A recompensa é, no entanto, não a pena mínima, mas a sensação plena de acolhimento que só a cumplicidade de um amor sincero pode alcançar. Isso é o que chamo de amor livre. O resto é resto.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Contra-corrente

Luiz Gonzaga cantava uma música que marcou minha infância que dizia "Quem sai da terra natal, Em outro canto não pára..." Menina, esperava o sol se pôr na véspera do São João para vestir minha roupa de caipira, pintar o rosto com minhas primas e esperar meus tios acenderem a fogueira na roça, para depois soltar fogos de São João a noite inteira ao som de Luiz Gonzaga principalmente.Mal sabia eu o quanto aquela música marcaria minha vida. Saí da terra natal e morei e visitei lugares distantes. Não fui de pau-de-arara e a malota não era um saco, mas como muitos nordestinos antes de mim, migrei. Por razões diferentes: buscando me encontrar e para continuar crescendo profissionalmente.Até que tive medo de que não fosse parar em canto algum. Depois de quase dez anos de que tinha viajado por primeira vez, não tinha móveis, nem endereço fixo por mais de um ano, nem certezas que ultrapassassem dois anos.Bem, amar um carioca mudou tudo isso. Marido continua revolucionando minha vida intimamente todos os dias. Com o medo que eu tinha da estabilidade, minha vontade de permanecer tinha que ser com um subversivo do lugar-comum. Tudo em nossa história foge dos clichês.Quanto a mim, o que mais me intriga é como vim parar onde estou. Filha de funcionários públicos do interior, nascida e criada na capital baiana, onde Direito ou Medicina são as escolhas comuns das boas meninas, sou o anti-produto do meu meio: fui viajar, aprender línguas, estudar feminismo, casar de sandálias havaianas...É como dizem, "meninas boas vão pro céu, meninas más vão pra qualquer lugar..."Quando se é migrante, seus laços com qualquer lugar são tão tênues que mudar nem sempre é a questão. Permanecer, tanto quanto mudar, é uma escolha. Essa escolha é ainda mais clara na vida de um migrante. Se estou aqui é porque quero e escolhi estar. Remei contra a corrente do que se esperava de mim, pra vir parar onde eu escolhi, como escolhi.


Nesse post tão emotivo, encerro com uma linda performance de arte. A música em questão na voz de Bethânia sempre maravilhosa.
Antes disso, transcrevo um trecho do filme Frida que acho lindíssimo: o brinde da amiga de Frida e Diego no dia de seu casamento. Resume meu sentimento sobre o amor e o casamento por opção revolucionária.

"I don’t believe in marriage. No, I really don’t. Let me be clear about that.
I think at worst it’s a hostile political act, a way for small-minded men to keep women in the house and out of the way, wrapped up in the guise of tradition and conservative religious nonsense.
At best, it’s a happy delusion. These two people, who truly love each other and have no idea how truly miserable they are about to make each other.
But, when two people know that, and they decide with eyes wide open to face each other and get married anyway, then I don’t think it’s conservative or delusional. I think it’s radical and courageous…and very romantic.
To Diego and Frida."

sábado, 6 de março de 2010

Tempo lógico ou ejaculação precoce?

Minha analista é adepta do tempo lógico. As sessões não têm que durar uma hora, quando ela acha que falei uma questão-chave, ela levanta e encerra a sessão. Em geral, acho que surte efeito. Eu fico atordoada de ter dito algo que eu nem imaginava pensar. Ah, o poder das palavras… O problema é que minhas sessões não têm durado mais que vinte minutos. Talvez eu chegue muito rápido às questões-chave e isso seja positivo. Mas tenho pensado em mudar meu horário, quase na hora do almoço, talvez ela esteja com fome e não se concentre…Nesse carnaval, saí numa Escola de Samba. Mal começou, já tinha acabado, negócio meio estranho. De novo tava lá a sensação da ejaculação precoce, prazer mal satisfeito.Pra um prazer satisfazer, tem que durar? Ou ele pode existir absolutamente?Por outro lado, tenho um amigo que se gabava de demorar 45 minutos pra gozar e assim, segundo o próprio, dar muito prazer às parceiras. Todos os amigos comentavam isso como uma grande vantagem. Não sei quanto às outras mulheres, mas acho que um cara que demora sempre tanto pra gozar tá fadado a torrar a paciência de uma indivídua que às vezes só quer uma rapidinha. Vantagem pra mim é o cara controlar pra gozar quando quiser.Então prazer que satisfaz é aquele que dura o tempo certo?Eu não era tão exigente. Mas me aproximando dos 30, troco cinco coca-colas zero por uma normal bem gelada. Se for pra ganhar celulite, que valha à pena até a última gota. Daqui a 2 anos, não terei nunca mais vinte e alguns anos. A mudança de década dá um peso de urgência: sinto que tenho que me realizar sem as repressões que tive quando adolescente adulta.A questão é aceitar que não há realização plena, que às vezes nem sabemos o que nos aproximaria de algo assim e que as frustrações virão. Pra não se culpar por ter "se gastado em vão", há que se gastar com firmeza de propósito.
Encerro com o hilário taxista analista adepto do tempo lógico vivido por Luís Fernando Guimarães:

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Recordar, repetir e elaborar*

Se tem um binômio sempre presente na minha vida é o da autonomia versus dependência. Por muito tempo, conferi basicamente só a mim mesma a primeira característica e a todos à minha volta, a segunda. Assim, irmã mais velha não se tornou só um lugar na árvore geneológica, mas um estilo de vida. Cuido de resolver e me sentir responsável pelos problemas de todos, da minha irmã, da minha mãe, das pessoas com quem me relacionei… Há ao menos dois elementos intrínsecos nesse padrão de repetição: minha arrogância em me considerar mulher-maravilha-resolve-tudo e a opressão de não poder falhar nunca, de nunca poder precisar de ajuda.

Sempre tive um pé atrás com o processo da psicanálise. Meu preconceito de leiga no assunto é de que a psicanálise é muito baseada na superdeterminação dos traumas de infância na vida adulta. E “traumas” de infância não faltaram na minha relação familiar, apesar de todos os esforços dos meus pais que reconheço hoje. Logo, para mim, era ainda mais difícil aceitar a psicanálise por aquilo que eu julgava ser: a inescapável repetição de padrões apreendidos dos traumas de infância.

Há um mês, finalmente deitei no divã da minha analista, que comecei a frequentar a dois meses e meio, fruto de um reconhecimento meu de que não consigo resolver tudo sozinha: uma doença grave acometeu uma pessoa que amo e não sabia se chorava, se rezava, apesar de duvidar da existência de Deus, se simplesmente desistia de pensar em tudo isso e vivia em negação do problema… objetivamente, não havia nada a fazer além de manter a serenidade e ter fé em algum sentido maior da vida, mesmo que nem sempre o entendamos.

Psicanálise não é sobre repetição eterna como uma pura reprodução de padrões. É sobre o entendimento da frequente retomada de padrões, mas SEMPRE abrindo espaço pro advento do “impossível”. Milagre, mistério, mágica… esse espaço inexplicável pela razão desfaz o argumento da superdeterminação. Há tendências baseadas em experiências do passado, mas nada está determinado. O que está por vir não está escrito em pedra em lugar algum, está sendo escrito, como aqui agora.

* Texto do Freud sobre a técnica da psicanálise, disponível na web em suas obras completas.


Woody Allen em entrevista a respeito. Possivelmente um dos principais artistas a utilizar a psicanálise em sua arte, presente em diversos filmes.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pecadinho

Esse carnaval tinha planejado viajar. Aí resolvi sair num bloco pré-carnaval fim de semana passado e o bichinho do carnaval me mordeu. Já era. Convenci marido, decidi ficar.
"A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia..."
Trabalhei o ano inteiro, pedi demissão há pouco mais de um mês, entrei em crise sobre minha forma de "fazer política". Politicar exige nervos de aço, mas isso é tema pra outro post.

"Essa noite não quero saber de conselho,
esquece, deixe pra lá,
me arranje um pecado quente pra me consolar,
pense bem que depois tem o ano inteiro pra gente pagar"

Pra quem foi adolescente adulta e agora é uma adulta adolescente, se aproximar dos 30 tem uma leveza inesperada. E carnaval é tempo bom de transgressão. Quero pecadinhos sem culpa. Leveza e frenesi.

Já diria Tom Zé, nessa música que resume meu espírito, na voz da poderosa Márcia Castro:

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A mulher, as viagens…

Assim como muita gente, nasci e cresci numa dessas famílias de gente que não se entende. Gente que não sabe se amar sem se machucar. Minha saída pra essa realidade não foi me tornar rebelde – embora altamente contestadora do senso comum – mas sim desenvolver desde cedo uma paixão pelo estrangeiro, terras longíquas onde outra vida parecia possível e onde eu podia encontrar meu “verdadeiro” eu.

Do desejo realizado do primeiro intercâmbio aos 19 até a situação atual de morar no Brasil mas longe de minha cidade natal, passei por diferentes países onde morei, trabalhei, estudei ou só visitei. Aprendi a falar algumas línguas ao ponto de ser confundida por local não raras vezes, conheci lugares distantes só com uma mochila nas costas, guias na mão e uma obsessão na cabeça: conhecer, conhecer, conhecer… o diferente, o novo, o lugar dos sonhos possíveis.

O que sempre evitei foi a estabilidade. Os relacionamentos começavam com um impedimento claro, um alerta ao outro: “nós não temos futuro porque eu vou me mudar em alguns meses…” Que era na verdade um alerta a mim mesma: não quero estabilidade, não quero enfrentar problemas que existem em mim, não quero lidar com questões que emergem de relacionamentos longos.

Há um ano e meio me mudei pela “última” vez e, cansada da vida errante, decidi comprar móveis. Me casei. Decidi que queria fazer minha vida aqui, finalmente. Fiz contrato de aluguel. Faço planos de permanecer. Descobri há algum tempo que os problemas da minha família de origem não melhoravam com a minha fuga. As questões não resolvidas me perseguem como sombra em qualquer continente. O desejo de permanência faz parte do entendimento de que tenho que parar de fugir fisicamente de mim mesma para finalmente buscar me encontrar. Busca que é projeto de uma vida inteira…

Drummond traduziu meu sentimento em poesia há algum tempo:


sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Amar, verbo (in)transitivo

Confesso que amo. Mais: confesso que amo o homem que dorme ao meu lado todas as noites e que apresento como marido. Em tempos de descrença, amar é tão fora de moda…
Minha geração não acredita em nada: Deus, religião, perspectiva política, utopias, amor… tudo isso parece uma tolice sem tamanho.
As utopias eu nunca deixei, apesar de muitas vezes doer lutar por um mundo melhor – e acreditar que ele seja possível – em meio a tanto cinismo. Isso pra mim significa amar a humanidade. Essa experiência diz respeito a um amar, verbo intransitivo: amar simplesmente, independente do objeto amado. Assim, ainda me indigno com coisas há muito banalizadas… graças a Deus.
É, acho que apesar de negar ou “duvidar” que eu acredite, ainda acredito em Deus ou em um mistério da existência, a dimensão sagrada do que é inexplicável dentro de uma racionalidade lógica. Para uma pessoa auto-controladora como eu, explicar e racionalizar são palavras de ordem. Perceber que estava inegavelmente apaixonada de forma perturbadora, à la Florbela Espanca em “Fanatismo”, foi assim como viver minha própria experiência mística: há algo de sagrado, de inexplicável, de arrebatador nesse mundo… e eu tenho pouquíssimo controle sobre isso. Amar é um tremendo exercício de fé no outro, de que você está se entregando e confia nas intenções da pessoa amada de cuidar do seu coração tanto quanto você quer cuidar do dela. Essa experiência de amar pra mim se dá como verbo transitivo: há um ano, amo um homem cuja alma me parece imensa.
Porém, como parte de uma geração que acredita pouco, nem sempre dá pra falar de amar sem se sentir outsider e perceber a descrença alheia. Eu também já fui assim, então entendo. Amar, ao contrário do senso comum, é uma experiência socialmente solitária quando se está na geração dos quase 30 anos.

Fagner e Zeca Baleiro cantando a poesia de Florbela Espanca musicada por Fagner:
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..." Quando me dizem isso toda graça de uma boca divina fala em mim, olhos postos em ti digo de rastros: podem voar mundos, morrer astros, que tu és como um Deus, princípio e fim!"

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ando tão à flor da pele…

Felizmente nenhum beijo de novela me faz chorar porque não vejo novela. Mas se visse, chorava.

Não sei quanto às outras mulheres, mas sinto que minha TPM só piora com a idade. Choro, geralmente à noite. Digo coisas duras, geralmente a quem amo.

Tá, tô desempregada há uma semana, não consigo achar ar condicionado pra comprar apesar da sensação térmica de 50 graus no Rio, meu companheiro tem um problema de saúde grave… marido diz que estou sendo exigente demais comigo mesma, apesar de concordar que tenho estado arisca.

SEMPRE fui muito exigente comigo mesma. Costumo dizer que fui uma adolescente adulta: irmã mais velha; primeiro beijo, quase 15; nenhuma reprovação na escola ou faculdade; só comecei a beber aos 19... É um currículo permeado de neuroses de todos os tipos.

O processo de me tornar uma mulher adulta foi de transgressão, de me tornar uma adulta adolescente. Ainda sou pouco desvairada, mas sou definitivamente uma pessoa mais leve. Ok, os quilinhos a mais. Ok, beber, pagar mico, ficar de ressaca. Ok, não me casar de branco. Ok, ganhar menos que a maioria dos meus amigos. Ok, alguns pecadinhos.

A TPM foi meu termômetro, no entanto. Ainda sou muito dura comigo. Ainda quero ser mulher-maravilha. Viajo o mundo a trabalho (literalmente os cinco continentes no último ano e meio), mas considero fundamental ter mais tempo em casa, cozinhar com marido, ler a Piauí juntos. Tenho a oportunidade de defender minhas visões políticas em lugares que jamais imaginei… e quando vejo marido dormir, percebo que desisti da idéia de não ter filho. Quero ter um filho um dia com a cara dele, quero ir à Bolívia de Morales, quero aprender italiano, quero poder alugar um apartamento maior (porque num quarto e sala todo problema aumenta)…

No filme Annie Hall, o personagem de Woody Allen começa dizendo que a vida dele é como aquela velha história de que “eu não gostaria de fazer parte de nenhum clube que me aceite como membro”. Tenho me sentido assim. Essa insatisfação até que me move e pode me levar a algum lugar interessante. No momento, ela tá me enchendo o saco. Posso terminar esse post sem uma mensagem de "dias melhores virão"? Ao menos, há boa arte no mundo pra gente viver melhor os dias cinzas.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Valor de troca e valor de uso

Trabalho há 1 ano e meio em uma ONG feminista e me considero muito mal remunerada, consideração frequentemente respondida por minha chefe com um “é o valor do mercado” difícil de tolerar. Há pouco mais de um mês, descobri que uma amiga que ocupa um cargo similar em uma organização parceira ganha quatro vezes o que ganho!! Ecoou ainda mais forte as perguntas que não calam em mim: Quanto valho pro mercado? Quanto valho pra minha chefe? Quanto valho pra mim mesma?

Essa semana, minha chefe respondeu à segunda pergunta: me disse com a maior naturalidade que não me pagaria um extra previamente acordado por uma consultoria que prestei. Em retorno, resolvi (começar a) responder à última pergunta: pedi demissão no dia seguinte.

Poucas dias marcam tanto minha vida adulta como esse. A gente vai assumindo responsabilidades crescentes de forma natural, quase sem perceber. Aí de repente acontecem uns marcos representativos do todo. Ano passado, no mês em que completei 28 anos, me casei e assinei o primeiro contrato de aluguel em meu nome. Apesar de ter saído da casa dos meus pais pela primeira vez aos 19 anos, foi um momento catártico: me dei conta de vez que minha vida adulta é agora. Em sua chegada em minha vida, Saturno não poupou em símbolos.

Pedir demissão e decidir viver temporariamente de consultorias, economia e seguro-desemprego/FGTS vai de encontro à minha mania de controle. Cheguei em casa quase de ressaca, num misto de alívio e “e agora??” Não foi bem um salto no escuro: tenho contatos e propostas de consultoria. Mas, filha de funcionários públicos, fui ensinada desde pequena a ter cautela e ser pragmática. Esse tipo de ousadia parecia não combinar com meu estilo... Só que eu tenho uma teoria sobre mim que falarei em outro post: fui uma adolescente adulta, agora estou me tornando uma adulta adolescente. Ousar combina mais comigo do que nunca.

E me perguntar o meu valor faz parte de um processo de auto-descoberta necessário. Infelizmente, em uma economia capitalista, até ONG segue a lógica do mercado. Nesse mundo, a gente não vale o que sabe e pode fazer. A gente vale o que o mercado determina. Falta então saber qual a resposta do mercado à primeira pergunta. Não outorgo com isso ao mercado o poder de determinar o valor de uso da minha força de trabalho. O quanto valho está muito além do entendimento que "o mercado" pode alcançar. Mas o valor de troca do meu trabalho, determinado pelo mercado, eu resolvi pagar pra ver. Não é que não tenha medo... minha coragem que é muito maior.


sábado, 2 de janeiro de 2010

Sobre listas e necessidade de controle

Sempre adorei fazer listas: de compras, de tarefas, de filmes que quero baixar, de CDs que quero gravar, de questões a resolver antes de uma viagem grande, do que colocar na mala, de lugares a visitar...

Nada surpreendente que eu goste tanto de listas afinal sou obsessiva. As listas acalmam as neuroses. Dão uma noção de perspectiva e uma sensação de que estou no controle. Controle. Por que alguem acredita por um segundo sequer que esse controle exista?

Só que levou um tempinho pra eu me dar conta disso… quem faz listas com tanto prazer considera este um ato absolutamente normal. Eu tenho inclusive fiéis companheiros da arte de fazer lista! Eu e minha irmã costumávamos sentar pra fazer listas juntas antes de uma viagem ou projeto comum. Um dos meus melhores amigos é fanático por listas. Já fizemos inúmeras listas em guardanapos em mesa de boteco. Teve uma inclusive, em janeiro de 2009, em que debatemos “cinco coisas que meu próximo peguete tem que ter”. Dias depois, meu “próximo peguete” excedeu as qualidades exigidas em minha lista de então e veio a se tornar meu marido oito meses depois. Necessidade pouca de controle é bobagem…

Aliás, o derradeiro peguete – que recusou-se solenemente a ser só frenesi e virou marido – ao perceber as propriedades calmantes que as listas têm sobre mim, volta e meia faz alguma comigo, especialmente durante a TPM… esse homem é um sábio, acima de tudo.
O que considero mais grave é que não faço só lista de obrigação, mas de prazer também. Recentemente marido me ajudou a fazer a lista de atividades que faríamos nas férias de fim de ano. É que como decidimos ficar no Rio pra curtir nossa casinha nova, fiquei obsessiva com a idéia de que acabaríamos fazendo as mesmas coisas de sempre por não trocar de ambiente. A lista foi uma espécie de monitoramento pra que a gente não ficasse na cama o dia inteiro, deixando o verão sempre pra mais tarde…

É difícil lutar contra fazer listas, afinal elas quase sempre funcionam comigo: me acalmam e me deixam com a impressão de que tenho tudo sob controle. Tenho noção dos perigos dessa falsa impressão, vide minha assuidade na análise. Mas enquanto eu estiver substituindo ansiolíticos por listas, acho que o saldo é positivo…

O importante é não perder de vista a lição que aprendi a duras penas com as vicissitudes da vida: a sensação de controle é falsa. Citar a analista é lugar-comum, mas a mulher é boa e resolvi dar o crédito: ela me falou da dificuldade de lidar com o buraco negro da vida, o inesperado e imprevisto que sempre há. Mas isso é tema graaaaaande pra outro dia.

Por ora, sigo com minhas listinhas, afinal novo ano implica em resoluções… estudar pra entrar no doutorado, emagrecer, convidar os amigos pra jantar comidinhas gostosas feitas por moi-même, ler Lewis Carroll antes do filme do Tim Burton estrear… como toda mulher, sofro da síndrome de Mulher-Maravilha, acho que posso fazer de um tudo, mas isso também é assunto pra outro papo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Retorno de Saturno

Mafalda quer um mundo melhor e se indigna com as injustiças. Sua amiga Susanita sonha em encontrar o amor e só pensa em se casar e ser mãe. Durante séculos, as mulheres não puderam ser Mafaldas e eram obrigadas a ser Susanitas. As que se rebelavam eram no mínimo taxadas de bruxas. A primeira geração de feministas quis ser só Mafalda e rejeitou as Susanitas. Mas toda mulher é meio Mafalda, meio Susanita. O grande drama da nossa geração é superar a falsa dicotomia... e essa é a busca da minha vida. Com 28 anos, começo a desconfiar que Saturno não retorna silenciosamente. Faz estrondo. Descobri que a vida é aqui e agora: o que eu queria ser quando crescer já deveria estar sendo… Há, todavia, boas notícias: a realidade pode ser mais vibrante do que sonhos tolos juvenis de príncipes encantados e mundos cor-de-rosa... Com vinho e fé na vida, abraço a contradição e celebro o amor e a utopia.