sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Sobre a transitoriedade

Difícil mesmo é ter prazer no presente. Uma lua cheia linda que antes me encheria de fé na vida é como o planeta Melancolia prestes a colidir com a Terra. Fico me perguntando de que adianta querer o que pode acabar. Sofro por antecipação do luto de tudo que é belo e pode vir a ser belo, em conseqüência do luto de fato.
A perda é a dor mais bárbara que já senti. Agora como nunca entendo meu companheiro e suas perdas. Se já me doía o coração ao vê-lo chorar por não poder me ver, agora me dói tanto tudo que ele poderia ter sido e a falta imensa do que ele já foi.
No dia seguinte à sua partida, acordei com uma pergunta: "se ele existe em algum lugar, voltará a enxergar?" Ai, como sorriria ao saber que ele existe enquanto consciência individual, pensante, em contínua expansão e que não sente dores físicas e que pode ver. Como o amor generoso que cultivamos, seguiria sorrindo, cúmplice da alegria dele em encontrar a cura que tanto buscou em vida e que nos levou até a Índia para uma convivência inesquecível. Como admirei a luta que ele travou aquelas semanas. E antes. E depois. Que homem imenso.
Com sua ausência e a incerteza da sua continuada existência, busco em vão apreender o sentido das coisas. Poderei eu voltar a sorrir e a querer a vida genuinamente, mesmo sabendo da certeza da perda? Mesmo sem ter certeza do reencontro?
Quero querer. Mas ainda desconheço o caminho e me acompanha o medo. Até quando? Se tudo é transitório, o será também a dor da alma? O que parece agora tristeza profunda irremediavelmente instalada talvez possa um dia se tornar saudade singela e vontade de viver. Sigo lutando por sentidos redescobertos.


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