
Tenho buscado sorrir, cantar e dizer bom dia, mesmo quando a vida tem tido tão pouco sentido. Decidi há algum tempo que não quero que a amargura se torne o tom da minha existência, apesar das não poucas dores da alma.
O sentido da vida não existe, pensei. Criamos nós. Mas não conseguia criá-lo nem como fantasia. Tentei no carnaval, com seu salvo conduto coletivo para a invenção de si. Buscando leveza, me fantasiei de Chaplin. Segurando uma plaquinha escrito "Sorri", como na música de sua autoria. Um imperativo para mim mesma. "Sorri, vai mentindo a tua dor...[que] todo mundo irá supor que és feliz." Pensava, quem sabe, como passe de mágica da fantasia, a suposição dos outros se tornaria realidade.
Seria feliz.
Singela ilusão. Doce. Mas iludida.
Não seria a fantasia do carnaval ou a carga de trabalho que criaria sentidos naturalmente. Ao menos ainda não.
E ao tentar ignorar a dor da alma, encenando qual palhaço a felicidade que não tinha, minha alma gritou. Gritou em dores físicas. Intensas. Sem diagnóstico. Corpo falhando. Puxando o tapete da minha ilusão. Deixando à mostra a poeira que bloqueia os canais da minha alma.
Cansada. Não, exausta.
Me deixa em paz. Me deixa encenar alegrias e sorrisos. Quero viver em paz. Mesmo que isso exija a fantasia de artista.
Não teve jeito. O corpo dói. A alma grita atenção através da dor do corpo. Tudo bem, alma. Vamos conversar.
"Por que o senhor pretende excluir de sua vida qualquer inquietude, qualquer dor, qualquer melancolia, sem saber o que essas circunstâncias realizam? Por que perseguir a si mesmo com estas perguntas: de onde pode vir tudo isso e para onde vai? No entanto, o senhor sabe que está em meio a transições e não desejaria nada mais do que se transformar. Se algum dos seus procedimentos for doentio, considere que a doença é um meio com o qual o organismo se liberta de corpos estranhos; por isso é apenas preciso ajudá-lo a estar doente, a assumir e ter sua doença por completo, pois é esse o seu curso natural." Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta.
"Sorri, quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios
Sorri, quando tudo terminar, quando nada mais restar do teu sonho encantador
Sorri, quando o sol perder a luz e sentires uma cruz nos teus ombros cansados, doridos
Sorri, vai mentindo a tua dor, e ao notar que tu sorris, todo mundo irá supor que és feliz."
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