Como é possível dedicar esforço e cuidado para cultivar flores por tanto tempo e encontrar de um momento para o outro um campo árido e sem vida? Como é possível desejar tanto o corpo de um homem e seguir vivendo mesmo depois de vê-lo inerte num caixão?
Parece ser o fim da esperança na vida, o epíteto da morte trágica e repentina que não deixa recados, desculpas ou despedidas concretas. Só a sensação de porta fechada a cal, sem comunicação possível. Para SEMPRE. Que dor sem fundo é lidar com o nunca mais, com o não irredutível, com a impossibilidade atroz. Me arrasto como um zumbi, autômato do fazer cotidiano. Lavar pratos, dormir e acordar, checar e-mails, buscar apartamento, falar milhões de vezes sobre um ato e tudo que levou a ele e tudo que ele acarretou. Para quê? Se nunca vou entender nada de fato, nunca vou poder voltar atrás e refazer, nunca vou poder saber o último pensamento daquele que tanto amei. Terá sido de libertação e alívio? Terá sido de desespero e vontade de ficar? Terá se sabido amado? Terá seguido me amando?
Por que não se desmancham no ar as coisas feias e duras? O desamor, o sofrimento, as dores do corpo, a exploração de tantos por alguns... Por que ao contrário se desmancha o belo e mágico, o amor construído com tanta entrega?
Eu que sempre tive tantas certezas, sou um poço de dúvidas.
Flutuando em mar aberto, à deriva, minha alma desconectada da vida que segue, tormenta por dentro, buscando desesperadamente momentinhos de fé que me permitam seguir em frente com algum reflexo de sentido. Que falta me fazem as palavras de consolo que ele como ninguém sabia dizer, a parte de seu corpo onde eu repousava minha cabeça em busca de acolhimento e que já tínhamos acordado ser o meu "ninho no ninho", nossa casa.
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