Luto é como maré de ressaca. Começou com ondas violentas que arrastaram tudo e me fizeram duvidar se ia sobreviver.
Com o tempo, as ondas foram ficando menores e mais espaçadas, até o ponto em que consegui conviver com elas. E foi aí que vi o estrago. O coração erodido, cheio de destroços, arrasado.
Já sei que vou sobreviver, mas a situação é tão desoladora que só resta respirar fundo e começar o trabalho paciente de recolher os cacos e curar, dar nova vida, novos significados.
É difícil. Cansa. Deixa muito mais dúvidas do que certezas.
Não quero me tornar praia fortificada, sem coragem de me entregar ao abraço das ondas do mar com medo de novas tormentas. Mas ainda não sei como ser a praia que fui um dia, abraçando de volta a maré cheia com convicção, audácia e vontade. Talvez nunca mais seja. Não se sabe.
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